Revolução Federalista (1893-1895)

A Revolução Federalista foi uma guerra sanguinária que se deu no Sul do Brasil, entre 1893 e 1895. Chamou-se Federalista porque esse era o nome do partido que liderou a oposição no Rio Grande do Sul. Desde o início da República, o Estado passava por um período conturbado pela disputa de poder, que culminou com uma guerra de atrocidades.

Os anos seguintes, após a Proclamação da República, em 1889, foram de muitos conflitos. Ao assumir como presidente constitucional, em 1891, Deodoro da Fonseca já estava desgastado politicamente.

No Rio Grande do Sul, o deputado Júlio de Castilhos liderou uma comissão para elaborar um projeto de constituição estadual, que foi aprovado pelo Congresso Constituinte estadual, em 14 de julho de 1891. No mesmo dia, aquele Congresso elege-o Presidente do Rio Grande do Sul e tomou posse no dia 16. Essa Constituição estadual era autoritária e, assim, foi seu governo. Mas não durou muito.

Em 3 de novembro de 1891, Deodoro da Fonseca dissolveu o Congresso Nacional. Castilhos, de acordo com o jornal A Federação, do dia 11 de novembro, informou à Assembleia dos Representantes que discordava da dissolução do Congresso, apesar de se considerar amigo pessoal e admirador do Presidente da República. Considerou o ato um golpe de estado não legitimado. Ocorreram tumultos em Santana do Livramento, Bagé, Rio Grande e Porto Alegre. Para evitar um conflito fratricida, Castilhos comunicou sua renúncia, na manhã de 12 de novembro, conforme uma nota explicativa publicada em A Federação, do dia 13. Assis Brasil, cunhado de Castilhos, assumiu o governo gaúcho, sem seu apoio.

Em 23 de novembro de 1891, Deodoro foi forçado a renunciar em favor de seu vice, o alagoano Floriano Peixoto, que passou a governar com mão de ferro. Nos meses seguintes, o Rio Grande do Sul passou por alguns governos provisórios. Julio de Castilhos elegeu-se novamente governador e assumiu, em 26 de janeiro de 1893.

Em fevereiro de 1893, eclodiu a Revolução Federalista, que se estendeu a Santa Catarina e Paraná.

Os federalistas queriam uma revisão da Constituição estadual. Havia um centralismo exagerado no Governo gaúcho, mas existiam também insatisfações de todo tipo com os novos tempos da República. Defendiam o Parlamentarismo e uma constituição mais liberal para o Rio Grande do Sul. Eram também chamados de maragatos, pois muitos vinham do Uruguay, principalmente do Departamento de San José, região colonizada por maragatos da Espanha. Facções de oposição ao governo gaúcho formaram uma frente rebelde, sem uma liderança clara.

Do outro lado estavam os legalistas, liderados pelo autoritário Júlio de Castilhos. Eram chamados de chimangos, em referência a uma ave de rapina da região.

Um dos principais líderes dos federalistas era o gaucho Gaspar Silveira Martins, que foi Ministro e Presidente do Rio Grande do Sul, no período monárquico. Com a República, Martins foi desterrado pelo Decreto N.78 de 21 de dezembro de 1889, revogado pelo Decreto N. 1.037, de 19 de Novembro de 1890. Martins retornou do exílio e já estava no Rio Grande do Sul, em fevereiro de 1892. Fundou o Partido Federalista, em março/abril de 1892, com outros líderes gaúchos, além do médico baiano Ângelo Dourado, autor do livro Voluntários do Martírio - Narrativa da Revolução de 1893.

No início de fevereiro de 1893, partindo do Uruguay, as tropas do caudilho Gumercindo Saraiva entraram no Rio Grande do Sul e uniram-se às forças do General João Nunes da Silva Tavares, o Barão de Itaqui, e um dos fundadores do Partido Federalista. Em 23 de fevereiro, o exército rebelde ocupou a Cidade de Dom Pedrito, no sul do Estado e seguiu expandindo seus ataques. Tinham apoio de muitos simpatizantes da Argentina e do Uruguay.

Em 4 de abril, houve o primeiro combate entre os maragatos e chimangos, em Salsinho, perto de Bagé. Os rebeldes venceram, mas perderam em Inhanduí, em 3 de maio. Os maragatos venceram novamente na Batalha do Cerro do Ouro, em 27 de agosto.

Os federalistas comandados pelo General Silva Tavares venceram a Batalha do Rio Negro, em 28 de novembro, e degolaram alguns dos prisioneiros. Os castilhistas aumentaram o número de degolados, em suas versões.

As tropas de Gumercindo Saraiva avançaram para Santa Catarina. Chegaram a Joinville, em 10 de novembro de 1893. Estabeleceram sua base de operações no Desterro (atual Florianópolis). Depois, avançaram para o Paraná. Em fevereiro de 1894, tomaram Lapa, após um cerco de 26 dias. Seguiram para Curitiba, de onde o Governador do Estado havia se retirado, e lá se estabeleceram por algum tempo. Em 19 de abril, as forças federais, enviadas por Floriano Peixoto, chegaram para pacificar o Desterro.

Em 5 de abril de 1894, no Combate do Boi Preto, Região das Missões, os chimangos se vingaram e degolaram 250 maragatos. Foi uma barbárie jamais esquecida.

Em 27 de junho de 1894, Os federalistas foram derrotados na Batalha do Pulador, perto de Passo Fundo. Em 10 de agosto, Gumercindo Saraiva foi morto, com um tiro no ventre, "indo ver uma guerrilha" em Carovy, no Rio Grande do Sul, conforme relato de Silveira Martins. As tropas Gumercindo passaram a ser comandadas por seu irmão Apparicio Saraiva.

Em 15 de novembro de 1894, Prudente de Moraes assumiu a Presidência da República. Moraes entendeu que a solução para o conflito seria uma paz negociada diretamente pelo Governo Federal com os federalistas.

Em 7 de maio de 1895, Prudente de Moraes nomeou o baiano Innocencio Galvão de Queiroz, Comandante do 6º Distrito Militar e de todas as forças em operações no Rio Grande do Sul. Ainda no Rio de Janeiro, em 28 de maio, Galvão de Queiroz escreveu ao General Silva Tavares, comandante rebelde, solicitando marcar um encontro na fronteira de Bagé para negociações de paz (veja quadro vermelho ao lado).

O hábil general baiano assumiu o posto em 8 de junho de 1895, na Cidade de Rio Grande, e mandou publicar a Ordem do Dia, em jornais do Estado, em que citou: "Em vez de violencias, vexames affrontosos e offensas aos direitos e regalias dos cidadãos, cumpre que tenhamos tolerancia, que sejamos magnanimos offerecendo-lhes solemnes provas de que não temos odios nem vinganças a exercer e de que não empunhamos as armas com fim outro que não o de garantir as instituições da Republica".

Silva Tavares respondeu a carta, em 18 de junho, concordando com uma conferência de paz. Em telegrama, Galvão de Queiroz respondeu que enviaria um oficial em 8 de julho e convidou Silva Tavares a ir até Pelotas.

Em 24 de junho de 1895, uma facção, vinda do Uruguay, tentava unir-se aos federalistas, mas foi derrotada na Batalha de Campo Osório. Era comandada pelo almirante Saldanha da Gama, que foi morto em fuga. Esse foi o último combate da Revolução Federalista.

Após uma guerra sangrenta, com cerca de dez mil mortos, muitos degolados, o Rio Grande do Sul foi pacificado. Em 23 agosto de 1895, a ata da pacificação foi assinada por Galvão de Queiroz e o General Tavares, em Pelotas. Os rebeldes foram anistiados e prometeu-se a revisão da Constituição do Estado.

Julio de Castilhos foi contra o acordo de paz e passou a fazer oposição a Prudente de Moraes. Continuou no Governo do Estado, até 1898.

Antes de setembro de 1895, Gaspar Silveira Martins foi para Buenos Aires. Em agosto de 1896, ele presidiu o Congresso do Partido Federalista, em Porto Alegre, que defendeu o Parlamentarismo.

Os conflitos políticos continuaram no Rio Grande do Sul por muitos anos seguintes.

Mais:

Guerra dos Farrapos

Rio Grande do Sul no Século 19

Rio Grande do Sul no Século 20

 

 

Residência

 

Rio Grande do Sul

 

O Museu Julio de Castilhos, instalado na antiga residência de Julio de Castilhos, em Porto Alegre.

 

Monumento Julio de Castilhos, em Porto Alegre.

 

História

 

O livro Voluntários do Martírio - Narrativa da Revolução de 1893, escrito pelo médico baiano Ângelo Cardoso Dourado (1857-1905), um dos fundadores do Partido Federalista. Sua obra é uma das principais referências sobre a Revolução Federalista. Dourado nasceu em Salvador e formou-se na tradicional Faculdade de Medicina da Bahia, em 1880. Também escreveu O Médico dos Pobres, As Minas de Ouro e O Impaludismo no Rio Grande do Sul.

 

O gaúcho João Nunes da Silva Tavares (1818-1906), Barão de Itaqui, tornou-se o principal líder dos federalistas, no final da Revolução, e negociou a paz com o baiano Galvão de Queiroz.

 

Silveira Martins (esquerda) e o Coronel Joaquim Pedro Salgado (1835-1906). Foto: Museu Municipal de Itajaí.

 

O gaúcho Gaspar Silveira Martins (1835-1901). Foi Ministro da Fazenda e Presidente do Rio Grande do Sul durante a Monarquia. Exilou-se com a República, mas retornou em 1892. Era parlamentarista e fundou o Partido Federalista.

 

Cartas de Galvão de Queiroz a Silva Tavares

Galvão de Queiroz escreveu, em 28 de maio, do Rio de Janeiro, para o General Silva Tavares, dizendo que não poderia, nem deveria atirar-se "à luta antes de empregar meios conciliatórios para alcançar dos revoltosos a deposição das armas, mediante condições honrosas para o governo federal, que represento, e para os rebeldes, de que sois o verdadeiro chefe. Para isto e que vos dirijo estas linhas dita das por amor dos créditos do exército que comando e pela consideração que me mereceis como cidadão de valor e serviços prestados à pátria; por isso é que vos convido a marcar dia em que vos possa mandar receber na fronteira de Bagé, a fim de conferenciardes comigo no meu quartel-general. Podeis acreditar na lealdade do vosso camarada".

Silva Tavares respondeu a carta, em 18 de junho, de Pontas do Jaguary. Dizia que o Governo Federal e as instituições da Pátria nunca estiveram em jogo e que a luta era puramente local, entre irmãos. Disse ainda que se sentia com ânimo, calmo e sereno, para tratar a paz com honra para todos e conquistar o direito de viver em liberdade. Mas relatou que seu exército estava espalhado pelo interior e que havia enviado ordens para que se aproximasse e se suspendesse as hostilidades, então, marcaria o dia.

Em 2 de julho, Galvão de Queiroz acusou, por telegrama, o recebimento da resposta. Disse que enviaria um oficial de confiança, dia 8, e que seu estado de saúde não permitia que fosse até Bagé. Convidou Silva Tavares a ir a Pelotas.

Fonte: jornal A Federação de 29 de julho de 1895.

O Marechal Innocencio Galvão de Queiroz nasceu em Valença, na Bahia, em 6 de agosto de 1841. Era Bacharel em Matemática e Ciências Físicas e oficial do Corpo de Engenheiros do Exército. Recebeu de D. Pedro II medalhas do Mérito Militar e foi agraciado com a Ordem de Cristo, São Bento de Aviz, Cruzeiro e Rosa. Faleceu em maio de 1903.

 

O gaúcho Julio Prates de Castilhos (1860-1903). Dirigiu o jornal republicano A Federação, de 1884 a 1891. Foi deputado constituinte e governou o Rio Grande do Sul, em dois períodos, com estilo autoritário, provocando forte oposição.

 

Guerra Farrapos

 

Mais: História do Rio Grande do Sul

 

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Acima, maragatos, durante a Revolução. Ao centro, Gumercindo e seu irmão Apparício Saraiva.

 

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Revolução Federalista (1893-1895)

 

 

Por Jonildo Bacelar

 

 

 

 

 

 

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